Na parte externa do Museu Abílio Barreto em Belo Horizonte, está exposta uma locomotiva a vapor, já sem pintura e sem brilho, de aspecto fossilizado, apelidada de Mariquinha:
O prédio centenário do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB) em Belo Horizonte é um casarão que servia como a sede da Fazenda do Córrego do Leitão. Até hoje o riacho que lhe deu nome corre um pouco abaixo da área do seu quintal, escondido sob lages de concreto que servem de base para a atual Avenida Prudente de Morais.
A sede do museu é uma das únicas edificações que restaram do antigo vilarejo do Curral del Rey (há também a Fazendinha Dona Izabel no Morro do Papagaio e talvez algum outro prédio que eu desconheça), situada na área escolhida para a construção da nova capital.
Nas décadas que sucederam à inauguração de Belo Horizonte, esse casarão colonial presenciou a nova metrópole se aproximar devagar do seu entorno, já que estava localizado numa região considerada não prioritária pela comissão construtora da cidade. Mesmo tendo sido desapropriado em 1894, ainda nos anos 40 seu entorno era pouco habitado, o que provavelmente o salvou. Em 1943 ele foi transformado em museu histórico:
O museu expõe peças relacionadas à fazenda e aos modos de vida da época do Curral del Rey e da capital que foi sendo construída nos terrenos que pertenciam ao vilarejo que deu lugar à capital.
O espaço externo do museu também expões peças históricas, como um carro de boi desmontado, um elevador, o bonde número 68 e a Mariquinha.
Essa locomotiva de configuração 0-4-2 T (sem rodas guia, quatro rodas motrizes e duas rodas de apoio, um locotanque) foi uma das sete máquinas utilizadas pela comissão de contrução da nova capital. As outras seis pertenciam à comissão do estado.
Durante a construção de Belo Horizonte, foi sendo construída uma pequena malha ferroviária ligando a zona urbada da cidade às cinco pedreiras existentes no entorno. O local de construção foi escolhido por causa dessas pedreiras segundo Alessandro Borsagli(leia aqui o seu excelente artigo sobre essas pedreiras): Pedreira do Acaba Mundo, Pedreira Prado Lopes, Pedreira da Lagoinha, Pedreira Morro das Pedras e Pedreira da Carapuça.
O arrendatário da Pedreira Morro das Pedras, Antônio Teixeira Rodrigues, o conde de Marinha, e dono da locomotiva Mariquinha teria sido o pioneiro no uso de umas via férrea ligando a pedreira que administrava à Estação Minas (hoje Praça da Estação), segundo o artigo Pedreiras de Belo Horizonte na Wikipedia. Mais tarde, a comissão de construção da nova capital teria implantado as outras linhas ligando as demais pedreiras.
Não disponho de informações sobre o destino da Mariquinha no período em que a pedreira Morro das Pedras encerrou suas atividades até sua chegada ao museu.
O fato é que essa mesma locomotiva foi fotografada junto ao Pirulito da Praça 7, sugerindo que o monumento tenha sido levado por essa locomotiva até a praça para a sua instalação. Se a imagem 6 abaixo coincide com a inauguração do Pirulito, a fotografia é de 1924:
Nessa imagem, vê-se que a Mariquinha tinha nessa época pintura preta com detalhes brancos (parte inferior do limpa-trilhos). Os dois domos, assim como a chaminé eram revestidos de chapas de metal dourado e também a caldeira tinha cintas metálicas, tudo muito lustroso e adequado ao evento.
Uma questão que essa imagem sugere é como essa pequena vaporeira teria alcançado a Praça 7. Por uma linha própria, construída para esse fim, ou pelos trilhos dos bondes?
As linhas do bonde eram de bitola métrica, como a da Mariquinha. Como ela era de apenas dois eixos, as curvas fechadas do bonde aparentemente não seriam um problema, exceto talvez pelo peso. O fato de a linha dos bondes ter aproveitado parte das linhas das pedreiras favorece a hipótese de a linha dos bondes ter sido usada para conduzi-la ao local de instalação do pirulito. Além disso, na fotografia, a locomotiva está sob a rede aérea de contato dos bondes (os cabos eletrificados que transmitem energia aos carros), sugerindo que ela estivesse mesmo sobre os trilhos dos bondes.
A numeração que ela apresenta na imagem 6(número 1) permanece da mesma de hoje, sugerindo que ela não tenha sido empregada em outra ferrovia após a desativação da pedreira Morro das Pedras. Talvez o Estado de Minas Gerais ou a prefeitura a tenha incorporado como patrimônio para pequenos serviços e como tal foi então destinada ao museu. Se esse foi o caso, tudo leva a crer que ela chegou ao museu em condições operacionais.
A imagem 6 mostra que a Mariquinha não sofreu alterações visíveis desde então, exceto pela pintura que parece ter sido raspada e pela ausência completa das chapas de metal nos domos e na chaminé (imagem 1).
Uma fotografia de 1994 (imagem 7) mostra que nessa época ela ainda tinha aspecto mais semelhante à da imagem 6: pintura preta, presença de revestimento metálico no domo posterior (note-se que na imagem 6 há revestimento metálico na chaminé e nos dois domos), chapa apenas no domo próximo à cabine, cintas polidas e os aros das rodas motrizes pintados em branco. A viga de madeira da testeira (onde se encaixa o limpa-trilhos) apresenta uma parte corroída à esquerda:






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