domingo, 6 de setembro de 2026

A locomotiva Mariquinha

Na parte externa do Museu Abílio Barreto em Belo Horizonte, está exposta uma locomotiva a vapor, já sem pintura e sem brilho, de aspecto fossilizado, apelidada de Mariquinha: 

                                      

1. Mariquinha no Museu Abílio Barreto em 2015
(Foto do autor)

Essa peça do museu está relacionada à construção da cidade, mas há pouca informação sobre ela.

O prédio centenário do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB) em Belo Horizonte é um casarão que servia como a sede da Fazenda do Córrego do Leitão.  Até hoje o riacho que lhe deu nome corre um pouco abaixo da área do seu quintal, escondido sob lages de concreto que servem de base para a atual Avenida Prudente de Morais. 

A sede do museu é uma das únicas edificações que restaram do antigo vilarejo do Curral del Rey (há também a Fazendinha Dona Izabel no Morro do Papagaio e talvez algum outro prédio que eu desconheça), situada na área escolhida para a construção da nova capital. 

Nas décadas que sucederam à inauguração de Belo Horizonte, esse casarão colonial presenciou a nova metrópole se aproximar devagar do seu entorno, já que estava localizado numa região considerada não prioritária pela comissão construtora da cidade. Mesmo tendo sido desapropriado em 1894, ainda nos anos 40 seu entorno era pouco habitado, o que provavelmente o salvou. Em 1943 ele foi transformado em museu histórico: 

                         
                  2. Sede da Fazenda do Córrego do Leitão em 1940.
(Fonte: Arquivo Público Mineiro.) 

O museu expõe peças relacionadas à fazenda e aos modos de vida da época do Curral del Rey e da capital que foi sendo construída nos terrenos que pertenciam ao vilarejo que deu lugar à capital.

3. Sede do Museu Histórico Abílio Barreto com o bonde número 68 ao fundo.
(Autor da Imagem: Ricadro Laf/PBH. Disponível na página da prefeitura de Belo Horizonte.

O espaço externo do museu também expões peças históricas, como um carro de boi desmontado, um elevador, o bonde número 68 e a Mariquinha. 

Essa locomotiva de configuração 0-4-2 T (sem rodas guia, quatro rodas motrizes e duas rodas de apoio, um locotanque) foi uma das sete máquinas utilizadas pela comissão de contrução da nova capital. As outras seis pertenciam à comissão do estado. 

Durante a construção de Belo Horizonte, foi sendo construída uma pequena malha ferroviária ligando a zona urbada da cidade às cinco pedreiras existentes no entorno. O local de construção foi escolhido por causa dessas pedreiras segundo Alessandro Borsagli(leia aqui o seu excelente artigo sobre essas pedreiras): Pedreira do Acaba Mundo, Pedreira Prado Lopes, Pedreira da Lagoinha, Pedreira Morro das Pedras e Pedreira da Carapuça. 

                     

4. Traçado da linha do ramal férreo urbano de Belo Horizonte(Imagem de Rafael Rajão Ribeiro. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedreiras_de_Belo_Horizonte)


5. Imagem de satélite com a localizaçao das cinco pedreiras em relação à Zona Urbana de Belo Horizonte.(Imagem retirada do excelente blog Curral del Rey, artigo sobre as pedreiras de Belo Horizonte)


O arrendatário da Pedreira Morro das Pedras, Antônio Teixeira Rodrigues, o conde de Marinha, e dono da locomotiva Mariquinha teria sido o pioneiro no uso de umas via férrea ligando a pedreira que administrava à Estação Minas (hoje Praça da Estação), segundo o artigo Pedreiras de Belo Horizonte na Wikipedia. Mais tarde, a comissão de construção da nova capital teria implantado as outras linhas ligando as demais pedreiras. 

Esse traçado conectando as pedreiras ao centro da nova capital permitia que os trens levassem os carregamentos de pedra para as proximidades onde elas seriam empregadas. 
Essa malha ferroviária urbana provavelmente foi desativada nos primeiros anos do século XX, tendo parte dela sido aproveitada pelo sistema de bondes.

Não disponho de informações sobre o destino da Mariquinha no período em que a pedreira Morro das Pedras encerrou suas atividades até sua chegada ao museu. 

O fato é que essa mesma locomotiva foi fotografada junto ao Pirulito da Praça 7, sugerindo que o monumento tenha sido levado por essa locomotiva até a praça para a sua instalação. Se a imagem 6 abaixo coincide com a inauguração do Pirulito, a fotografia é de 1924:


6. Mariquinha junto ao Pirulito da Praça 7
(autor desconhecido)

Nessa imagem, vê-se que a Mariquinha tinha nessa época pintura preta com detalhes brancos (parte inferior do limpa-trilhos). Os dois domos, assim como a chaminé eram revestidos de chapas de metal dourado e também a caldeira tinha cintas metálicas, tudo muito lustroso e adequado ao evento. 

Uma questão que essa imagem sugere é como essa pequena vaporeira teria alcançado a Praça 7. Por uma linha própria, construída para esse fim, ou pelos trilhos dos bondes? 

As linhas do bonde eram de bitola métrica, como a da Mariquinha. Como ela era de apenas dois eixos, as curvas fechadas do bonde aparentemente não seriam um problema, exceto talvez pelo peso. O fato de a linha dos bondes ter aproveitado parte das linhas das pedreiras favorece a hipótese de a linha dos bondes ter sido usada para conduzi-la ao local de instalação do pirulito. Além disso, na fotografia, a locomotiva está sob a rede aérea de contato dos bondes (os cabos eletrificados que transmitem energia aos carros), sugerindo que ela estivesse mesmo sobre os trilhos dos bondes. 

A numeração que ela apresenta na imagem 6(número 1) permanece da mesma de hoje, sugerindo que ela não tenha sido empregada em outra ferrovia após a desativação da pedreira Morro das Pedras. Talvez o Estado de Minas Gerais ou a prefeitura a tenha incorporado como patrimônio para pequenos serviços e como tal foi então destinada ao museu. Se esse foi o caso, tudo leva a crer que ela chegou ao museu em condições operacionais. 

A imagem 6 mostra que a Mariquinha não sofreu alterações visíveis desde então, exceto pela pintura que parece ter sido raspada e pela ausência completa das chapas de metal nos domos e na chaminé (imagem 1). 

Uma fotografia de 1994 (imagem 7) mostra que nessa época ela ainda tinha aspecto mais semelhante à da imagem 6: pintura preta, presença de revestimento metálico no domo posterior (note-se que na imagem 6 há revestimento metálico na chaminé e nos dois domos), chapa apenas no domo próximo à cabine, cintas polidas e os aros das rodas motrizes pintados em branco. A viga de madeira da testeira (onde se encaixa o limpa-trilhos) apresenta uma parte corroída à esquerda:

7. Mariquinha no Museu Abílio Barreto em 1994(Autor Rafael Rajão Ribeiro. Imagem           disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedreiras_de_Belo_Horizonte)


Embora na imagem 6 as rodas não apareçam, o limpa-trilhos tem a parte inferior pintada em branco, detalhe que não se vê mais na imagem 7. Isso sugere que a pintura com que a Mariquinha aparece na imagem de 1994 (imagem 7) não era exatamente a mesma que aparece na imagem 6. 
A imagem 7 acima contrasta com o aspecto mais atual (2015) (imagem 8) da locomotiva. Apesar da viga de madeira da testeira ter sido remendada ou substituída (a corrosão perceptível na imagem 7 está ausente na imagem 8), na imagem mais recente ela parece estar sem as três chapas e apresenta um aspecto envelhecido, sem brilho e com cabine, caldeira e aros das rodas sem pintura:


8. Mariquinha no Museu Abílio Barreto em 2015
(Foto do autor)



Não sei como essa locomotiva se encontra hoje. A última vez que a vi foi quando fiz essa imagem em 2015, mas, pessoalmente, preferiria que ela estivesse melhor conservada e com pintura.  Quem sabe até rodando, mesmo que dentro do museu num pequeno trecho de linha...😇 
De qualquer forma, sua história poderia ser mais detalhada e disponibilizada para o público no museu. Este texto tem essa intenção e qualquer correção e informação adicional sobre a Mariquinha são bem-vindos. 















quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Ottawa's urban rail system: from the streetcars to the O-Train

 When I first arrived in Ottawa, I was surprised to discover that, just as in Brazilian cities, all the former streetcar lines had been dismantled, and many of their rights-of-way had been converted into paved roads for buses and cars.

As happened throughout Latin America, North America also saw a widespread shift from streetcars to buses beginning in the late 1950s, and Canada was no exception. In that country as well, an extensive network of tracks disappeared in favour of the automobile industry. This movement originated in North America and influenced the thinking of entrepreneurs throughout the rest of the Americas and Western Europe.

In Canada, larger cities such as Victoria, Vancouver, Calgary, Edmonton, Winnipeg, Halifax, Montréal, Québec City, and Ottawa also abandoned their streetcar systems. There were only a few exceptions worldwide (I will discuss them in a future post). Toronto was the most significant of them in the Americas: it maintained uninterrupted streetcar service and, across the continent, has the greatest number of kilometres of track, passengers, and vehicles.

Ottawa's system did not have the same fate. In 1948, the OER (Ottawa Electric Railway), the private company that operated the city's streetcars, proposed a fare increase. This led to a referendum in which residents voted in favour of municipalizing the transit system. As a consequence, the publicly owned OTC (Ottawa Transportation Commission) took control of the OER (Ottawa Electric Railway) in 1950. Since the system was outdated and the new company did not have the resources to expand the streetcar lines, the OTC decided to eliminate the system. This took place on May 1, 1959. The following day, the decommissioned vehicles paraded through the city for the last time.

          Streetcar 869 on the “death line” (scrap yard) after the parade through the city
  (Source: McGee, David. Lost Ottawa. Vol. 1. Ottawa Press and Publishing, 2017, p. 28)

This pattern of replacing rail-based transit with road-based transportation ultimately resulted in the choking of roadways as the number of automobiles increased.

Because of this problem, more modern streetcar systems used in Germany (Stadtbahn) and later in Nantes and Grenoble, France (Tramway), began to inspire initiatives to bring back the old streetcar, now rebranded as LRT (Light Rail Transit), as an alternative form of urban mobility.


The Trillium (2 and 4) and Confederation (1 and 3) Lines

In a way, as part of a movement to bring back the discontinued mode of transportation, Ottawa began making plans in the late 1990s to reintroduce an urban rail system to the capital.

In 2001, the municipal transit agency OC Transpo (originally the Ottawa-Carleton Regional Transit Commission), successor to the former OTC, introduced the eight-kilometre Trillium Line with diesel trains. In 2019, it introduced the Confederation Line, an LRT system (Line 1). Since then, Line 1 has been undergoing expansion as part of a major urban mobility project, partially restoring the mobility once provided by the streetcar network while extending rail service to more distant parts of the city.

The Trillium Line (Current Line 2)

The Trillium Line opened in 2001, extending for eight kilometres under the name O-Train. It remained in operation until 2015 with three Bombardier Talent trains serving five stations: Bayview, Carling (now Downslake), Carleton, Confederation (now Mooney's Bay), and Greenboro.


Beginning in 2015, Bombardier's three Talent trains were replaced by six Alstom Coradia LINT trains. The system was then renamed the Trillium Line/Line 2, in anticipation of the construction of the future LRT Line 1, which opened in 2019.

Between 2019 and 2020, the Trillium Line connected with the newly opened Line 1 at Bayview Station, until the line was closed on May 2, 2020, for expansion southward. Line 2 then remained closed for nearly five years before reopening on January 6, 2025, with seven new Stadler FLIRT trains and additional stations. 

The current route includes Bayview, Corso Italia (new station), Dow's Lake (formerly Carling), Carleton, Mooney's Bay (formerly Confederation), Walkley (new station), and Greenboro. From Greenboro, four additional stations were opened to the south: Southkeys, Leitrim, Bowesville (a park-and-ride station), and, farther south, the Riverside South neighbourhood, whose terminus is Limebank Station.

At South Keys, Line 4 branches off toward the city's airport (YOW), serving three stations: South Keys, Uplands, and Airport.

In total, the current Line 2 has 13 stations and extends for 19 kilometres, while Line 4 has two stations and extends for four kilometres.

Currently, Line 2 has thirteen diesel trains: six Alstom Coradia LINT units and seven Stadler FLIRT units. The trains are comfortable and spacious, providing a pleasant journey of approximately 40 minutes from one end of the line to the other. Although the LINT trains still operate on Line 2, they are used more frequently on Line 4.

                 Alstom LINT train arriving at Limebank Station in February 2025
                                    (author's photo)
  

                                                 
                            Stadler FLIRT train arriving at Leitrim Station in January 2025
                                     (author's photo)


The Confederation Line (Lines 1 and 3)

Line 1 opened in April 2019 with its current thirteen stations: Tunney's Pasture, Bayview, Pimisi, Lyon, Parliament, Rideau, uOttawa, Lees, Hurdman, Tremblay, St. Laurent, Cyrville, and Blair.

Unlike Line 2, Line 1 was designed for light rail vehicles (LRTs), and currently operates with Alstom Citadis Spirit trains.

Although technically classified as LRT, Line 1 differs from traditional systems because it operates on fully segregated rights-of-way, eliminating interaction with pedestrians and road traffic. This configuration gives Line 1 operational characteristics similar to those of a metro system, although it uses lightweight rolling stock.

Since April 2019, the line has been undergoing expansion in both western and eastern directions. Part of the existing Line 1 alignment will be shared with the future Line 3, meaning that both lines (1 and 3) will share tracks between Lincoln Fields Station in the west and Trim Station in the east, the future eastern terminus (the current terminus is Blair).

                         

               Section under construction between Blair and Montréal stations in 2024

                                    (author's photo)

To the west, Line 1 will separate from Line 3 at Lincoln Fields Station and continue south to two additional stations, Iris and Algonquin, the future southwestern terminus.

Line 3, meanwhile, will continue westward from Lincoln Fields through four additional stations: Queensview, Pinecrest, Bayshore, and finally Moodie, its western terminus.

                                    

Map of the system including Line 3, still under construction
(Source: https://en.wikipedia.org/wiki/O-Train)

Even with this expansion, some areas that were once served by the streetcar system will remain without rail transit, such as Rockcliffe Park, whose streetcar line once carried passengers into the park's green spaces:


Streetcar operating inside Rockcliffe Park


Britannia Beach, for example, that still preserves its former streetcar station, may eventually be accessible on foot from the future New Orchard Station, but only after a walk of approximately 30 minutes.

The former streetcar station preserved in the Britannia Beach park.(Source: James Powell, in: https://www.historicalsocietyottawa.ca/publications/ottawa-stories/significant-technological-changes-in-the-city/britannia-on-the-bay-75)




Map of the system based on Google Maps
(Source: https://www.octranspo.com). Access the original map here.


The completion of the Line 1 expansion is planned for this year. Although strongly criticized by some residents, particularly those who do not depend on public transit, Ottawa's rail system has helped mitigate road congestion in the city while giving passengers back valuable time and providing greater comfort.

Despite its high cost, the current investment is restoring infrastructure that represents a continuation of earlier investments that were irresponsibly scrapped.

The return of rail-based public transportation to the city is proof that the streetcars in Ottawa, and in many other cities around the world, should never have been dismantled.

The O-Train is just one example of the modern return to streetcar-based transportation, as cities try to make up for some of the wrong choices of the past. In the years ahead, Ottawa will certainly need new lines and other forms of rail transportation to connect its different regions more efficiently. And, really, the same lesson applies to any major city.


For those interested in Ottawa's trains, the excellent website https://www.railfans.ca/ contains a wealth of information about Ottawa's urban rail system.


O sistema de trens urbanos de Ottawa: dos bondes ao O-Train

Quando cheguei a Ottawa, fiquei surpreso ao descobrir que, assim como nas cidades brasileiras, todas as antigas linhas de bonde foram suprimidas e muitos dos seus leitos convertidos em vias asfaltadas para ônibus e carros. 


Assim como aconteceu em toda a América Latina, também a América do Norte viu uma mudança generalizada de bondes para ônibus a partir do final dos anos 50, e o Canadá não foi uma exceção. Também nesse país uma extensa malha de trilhos virou sucata em favor da indústria automobilística. Esse movimento surgiu na América do Norte e influenciou a mentalidade dos empreendedores do restante da América e Europa ocidental. 

No Canadá, cidades maiores como Victoria, Vancouver, Calgary, Edmonton, Winnipeg, Halifax, Montréal, Québec e Ottawa também acabaram com suas linhas de bonde. Houve poucas exceções mundo afora(tratarei sobre elas em uma próxima postagem). Toronto, foi a maior delas nas Américas; manteve o serviço ininterrupto detendo em toda a América o maior número de quilômetros de trilhos, de usuários e de frota. 

O sistema de Ottawa não teve a mesma sorte. Em 1948, a OER (Ottawa Electric Railway), empresa privada que administrava os bondes da cidade propôs um aumento das passagens, o que provocou um referendo no qual a população votou a favor da municipalização do sistema de transporte. Como consequência a estatal OTC (Ottawa Transportation Commision) assumiu o controle da OER (Ottawa Electric Railway) em 1950. Como o sistema estava ultrapassado e a nova empresa não tinha recursos para a expansão das linhas do bonde, a OTC decidiu por extinguir o sistema, o que aconteceu no dia 1o de maio de 1959. No dia seguinte, os veículos já desativados desfilaram pela última vez na cidade.  

                    Bonde 869 na "linha da morte" (sucata) após o desfile pela cidade
    (Fonte: McGee, David. Lost Ottawa. Vol. 1. Ottawa Press and Publishing, 2017, p.28)

Esse padrão de substituição do modal ferroviário pelo rodoviário teve como resultado o estrangulamento das vias com o aumento dos automóveis. 

Devido a esse problema, bondes mais modernos usados na Alemanha (Stadtbahn) e mais tarde em Nantes e Grenoble na França (Tramway) passaram a inspirar iniciativas de retorno do antigo bonde, agora rebatizado de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), como alternativa de mobilidade urbana. 

As Linhas Trillium (2 e 4) e Confereration (1 e 3)

De certa forma num movimento de retorno ao modal extinto, Ottawa iniciou, no final dos anos 90, planos para reimplantar um sistema de trilhos urbanos na capital. 

Em 2001, a empresa municipal OC Transpo (inicialmente Ottawa-Carleton Regional Transit Commission) , sucessora da antiga OTC, implantou a linha Trillium de 8 quilômetros com trens a diesel e, em 2019, a linha Confederation de VLT (linha 1). A Linha 1 está desde então em expansão na realização de um grande projeto de mobilidade urbana, recuperando em parte a mobilidade que era oferecida pela malha de bondes, agora incluindo partes mais distantes da cidade. 

A Linha Trillium (Atual Linha 2)

A linha Trillium foi inagurada em 2001 com oito quilômetros de extensão sob o nome de O-Train e esteve em operação até 2015 com três trens Bombardier Talent percorrendo cinco estações (Bayview, Carling (atual Downslake), Carleton,  Confederation (atual Mooney's Bay) e Greenboro. 

             (Fonte: https://www.railfans.ca/o-train/content/trains/bombardier-talent)

A partir de 2015,  os três trens Talent da Bombardier foram substituídos pelos seis trens Alstom Coradia LINT. O sistema foi então renomeado para Trillium Line/Linha 2, já considerando a construção da futura linha 1 de VLTs inaugurada em 2019. Entre 2019 e 2020, a Trillium Line já fazia conexão com a recém inaugurada linha 1 na estação Bayview, até o fechamento da linha em 02 de maio de 2020 para a sua expansão na direção sul. A linha 2 permaneceu então fechada por quase cinco anos, quando foi reinaugurada em 06 de janeiro de 2025 com sete novos trens Stadler FLIRT e mais seis estações (duas estações adicionais e duas estações renomeadas no trecho original: Bayview, Corso Italia, Downslake, antiga Carling, Carleton,  Mooney's Bay, antiga Confederation, Walkley e Greenboro. A partir da estação Greenboro, mais quatro estações foram inauguradas na direção sul da cidade: Southkeys, Leitrim, Bowesville, uma estação estacionamento, e de lá até o bairro de Riverside South cuja estação final é a Limebank Station. 

Da estação South Keys, sai a linha 4 até o aeroporto da cidade (YOW), conectando três estações: South Keys, Uplands e Airport (Aeroporto). No total, a linha 2 atual conta com 13 estações e extensão de 19 quilômetros e a linha 4 com duas estações e quatro quilômetros de extensão. 

Atualmente, a Linha 2 conta com treze trens a diesel, seis Alstom Coradia LINT e sete Stadler FLIRT. Os trens são confortáveis, espaçosos e proporcionam uma viagem agradável de aproximadamente 40 minutos de uma ponta a outra da linha. Embora os trens LINT ainda rodem na linha 2, eles são mais utilizados na linha 4. 

                            

                       Trem Alstom LINT chegando à estação Limebank em fevereiro de 2025
                                     (foto do autor)
  

                                                 
                               Trem Stadler FLIRT chegando à estação Leitrim em janeiro de 2025
                                      (foto do autor)

A linha Confederation (Linhas 1 e 3)

A linha 1 foi inaugurada em abril de 2019, com as atuais treze estações (Tunneys Pasture, Bayview, Pimisi, Lyon, Parliament, Rideau, uOttawa, Lees, Hurdman, Trumblay,  St. Laurent, Cyrvile e Blair). Diferentemente da linha 2, a Linha 1 foi projetada para veículos leves (VLTs), contando atualmente com trens Citatis Spirit da Alstom. 

Apesar de ser tecnicamente classificada como VLT, a linha 1 se diferencia dos sistemas tradicionais por possuir vias completamente segregadas, eliminando o compartilhamento de tráfego com pedestres e veículos rodoviários. Essa configuração confere à linha 1 características operacionais de um metrô, embora opere com material rodante leve. 

Desde abril de 2019, a linha está em processo de expansão nas direções oeste e leste. A extensão parcial da atual linha 1 será dividida com a futura linha 3, de modo que ambas as linhas (1 e 3) compartilharão os trilhos entre as estações Lincoln Fields (oeste) e Trim (leste), a futura estação final no lado leste (atualmente a estação final é a Blair). 

                         

                   Trecho em construção entre as estações Blair e Montréal em 2024

                                  (foto do autor)

A oeste, a linha 1 se separará da linha 3 a partir da estação Lincoln Fields e seguirá no sentido sul para mais duas estações, Iris e Algolquin, a futura estação final no lado sudoeste. Já a linha 3, partindo da estação Lincoln Fields, seguirá para mais quatro estações na direção oeste: Queensview,  Pinecrest, Bayshore, alcançando a estação final Moodie. 

                                    

Mapa do sistema incluindo a linha 3 ainda em construção 
(fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/O-Train)

Mesmo com a expansão, algumas regiões que antes eram servidas pelo sistema de bondes continuarão órfãs do transporte por trilhos, como o Rockcliffe Park cuja linha conduzia os passageiros para dentro da área verde do parque:


Bonde trafegando dentro do parque Rockcliffe


Já a praia Britannia, por exemplo, que ainda preserva a antiga estação de bondes, poderá ser acessada a pé a partir da futura estação New Rochard, mas apenas depois de uma caminhada de cerca de 30 minutos. 


A antiga estação de bondes preservada no parque da praia Britannia




Mapa do sistema a partir do google maps
(fonte: https://www.octranspo.com). Acesse o mapa original aqui.


A finalização das obras da Linha 1 está planejada para este ano. Fortemente criticado por parte da população, especialmente por quem não depende do transporte público, o sistema de trens de Ottawa tem contribuído para mitigar o congestionamento das vias rodoviárias da cidade e devolver mais tempo e conforto aos passageiros. Apesar de oneroso, o atual investimento resgata antigos investimentos que irresponsavelmente foram sucateados. 
O retorno do sistema de transporte por trilhos à cidade é uma prova de que os bondes nunca deveriam ter sido destruídos em Ottawa ou em qualquer outra cidade do mundo. 

O O-Train é apenas um exemplo de retorno moderno do bonde como tentativa de corrigir escolhas equivocadas do passado. Nos próximos anos, com certeza novas linhas e outras formas de transporte por trilhos serão necessários para conectar de forma eficiente as diferentes regiões de Ottawa. E essa lição vale para qualquer cidade grande. 

Para os interessados no trem de Ottawa, a excelente página (https://www.railfans.ca/) possui farto material sobre o sistema de trens urbanos de Ottawa.