quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O sistema de trens urbanos de Ottawa: dos bondes ao O-Train

Quando cheguei a Ottawa, fiquei surpreso ao descobrir que, assim como nas cidades brasileiras, todas as antigas linhas de bonde foram suprimidas e muitos dos seus leitos convertidos em vias asfaltadas para ônibus e carros. 


Assim como aconteceu em toda a América Latina, também a América do Norte viu uma mudança generalizada de bondes para ônibus a partir do final dos anos 50, e o Canadá não foi uma exceção. Também nesse país uma extensa malha de trilhos virou sucata em favor da indústria automobilística. Esse movimento surgiu na América do Norte e influenciou a mentalidade dos empreendedores do restante da América e Europa ocidental. 

No Canadá, cidades maiores como Victoria, Vancouver, Calgary, Edmonton, Winnipeg, Halifax, Montréal, Québec e Ottawa também acabaram com suas linhas de bonde. Houve poucas exceções mundo afora(tratarei sobre elas em uma próxima postagem). Toronto, foi a maior delas nas Américas; manteve o serviço ininterrupto detendo em toda a América o maior número de quilômetros de trilhos, de usuários e de frota. 

O sistema de Ottawa não teve a mesma sorte. Em 1948, a OER (Ottawa Electric Railway), empresa privada que administrava os bondes da cidade propôs um aumento das passagens, o que provocou um referendo no qual a população votou a favor da municipalização do sistema de transporte. Como consequência a estatal OTC (Ottawa Transportation Commision) assumiu o controle da OER (Ottawa Electric Railway) em 1950. Como o sistema estava ultrapassado e a nova empresa não tinha recursos para a expansão das linhas do bonde, a OTC decidiu por extinguir o sistema, o que aconteceu no dia 1o de maio de 1959. No dia seguinte, os veículos já desativados desfilaram pela última vez na cidade.  

                    Bonde 869 na "linha da morte" (sucata) após o desfile pela cidade
    (Fonte: McGee, David. Lost Ottawa. Vol. 1. Ottawa Press and Publishing, 2017, p.28)

Esse padrão de substituição do modal ferroviário pelo rodoviário teve como resultado o estrangulamento das vias com o aumento dos automóveis. 

Devido a esse problema, bondes mais modernos usados na Alemanha (Stadtbahn) e mais tarde em Nantes e Grenoble na França (Tramway) passaram a inspirar iniciativas de retorno do antigo bonde, agora rebatizado de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), como alternativa de mobilidade urbana. 

As Linhas Trillium (2 e 4) e Confereration (1 e 3)

De certa forma num movimento de retorno ao modal extinto, Ottawa iniciou, no final dos anos 90, planos para reimplantar um sistema de trilhos urbanos na capital. 

Em 2001, a empresa municipal OC Transpo (inicialmente Ottawa-Carleton Regional Transit Commission) , sucessora da antiga OTC, implantou a linha Trillium de 8 quilômetros com trens a diesel e, em 2019, a linha Confederation de VLT (linha 1). A Linha 1 está desde então em expansão na realização de um grande projeto de mobilidade urbana, recuperando em parte a mobilidade que era oferecida pela malha de bondes, agora incluindo partes mais distantes da cidade. 

A Linha Trillium (Atual Linha 2)

A linha Trillium foi inagurada em 2001 com oito quilômetros de extensão sob o nome de O-Train e esteve em operação até 2015 com três trens Bombardier Talent percorrendo cinco estações (Bayview, Carling (atual Downslake), Carleton,  Confederation (atual Mooney's Bay) e Greenboro

             (Fonte: https://www.railfans.ca/o-train/content/trains/bombardier-talent)

A partir de 2015,  os três trens Talent da Bombardier foram substituídos pelos seis trens Alstom Coradia LINT. O sistema foi então renomeado para Trillium Line/Linha 2, já considerando a construção da futura linha 1 de VLTs inaugurada em 2019. Entre 2019 e 2020, a Trillium Line já fazia conexão com a recém inaugurada linha 1 na estação Bayview, até o fechamento da linha em 02 de maio de 2020 para a sua expansão na direção sul. A linha 2 permaneceu então fechada por quase cinco anos, quando foi reinaugurada em 06 de janeiro de 2025 com sete novos trens Stadler FLIRT e mais seis estações (duas estações adicionais e duas estações renomeadas no trecho original: Bayview, Corso Italia, Downslake, antiga Carling, CarletonMooney's Bay, antiga Confederation, Walkley e Greenboro. A partir da estação Greenboro, mais quatro estações foram inauguradas na direção sul da cidade: Southkeys, Leitrim, Bowesville, uma estação estacionamento, e de lá até o bairro de Riverside South cuja estação final é a Limebank Station. 

Da estação South Keys, sai a linha 4 até o aeroporto da cidade (YOW), conectando três estações: South Keys, Uplands e Airport (Aeroporto). No total, a linha 2 atual conta com 13 estações e extensão de 19 quilômetros e a linha 4 com duas estações e quatro quilômetros de extensão. 

Atualmente, a Linha 2 conta com treze trens a diesel, seis Alstom Coradia LINT e sete Stadler FLIRT. Os trens são confortáveis, espaçosos e proporcionam uma viagem agradável de aproximadamente 40 minutos de uma ponta a outra da linha. Embora os trens LINT ainda rodem na linha 2, eles são mais utilizados na linha 4. 

                            

                       Trem Alstom LINT chegando à estação Limebank em fevereiro de 2025
                                     (foto do autor)
  

                                                 
                               Trem Stadler FLIRT chegando à estação Leitrim em janeiro de 2025
                                      (foto do autor)

A linha Confederation (Linhas 1 e 3)

A linha 1 foi inaugurada em abril de 2019, com as atuais treze estações (Tunneys Pasture, Bayview, Pimisi, Lyon, Parliament, Rideau, uOttawa, Lees, Hurdman, Trumblay,  St. Laurent, Cyrvile e Blair). Diferentemente da linha 2, a Linha 1 foi projetada para veículos leves (VLTs), contando atualmente com trens Citatis Spirit da Alstom. 

Apesar de ser tecnicamente classificada como VLT, a linha 1 se diferencia dos sistemas tradicionais por possuir vias completamente segregadas, eliminando o compartilhamento de tráfego com pedestres e veículos rodoviários. Essa configuração confere à linha 1 características operacionais de um metrô, embora opere com material rodante leve. 

Desde abril de 2019, a linha está em processo de expansão nas direções oeste e leste. A extensão parcial da atual linha 1 será dividida com a futura linha 3, de modo que ambas as linhas (1 e 3) compartilharão os trilhos entre as estações Lincoln Fields (oeste) e Trim (leste), a futura estação final no lado leste (atualmente a estação final é a Blair). 

                         

                   Trecho em construção entre as estações Blair e Montréal em 2024

                                  (foto do autor)

A oeste, a linha 1 se separará da linha 3 a partir da estação Lincoln Fields e seguirá no sentido sul para mais duas estações, Iris e Algolquin, a futura estação final no lado sudoeste. Já a linha 3, partindo da estação Lincoln Fields, seguirá para mais quatro estações na direção oeste: Queensview,  Pinecrest, Bayshore, alcançando a estação final Moodie. 

                                    

Mapa do sistema incluindo a linha 3 ainda em construção 
(fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/O-Train)

Mesmo com a expansão, algumas regiões que antes eram servidas pelo sistema de bondes continuarão órfãs do transporte por trilhos, como o Rockcliffe Park cuja linha conduzia os passageiros para dentro da área verde do parque:


Bonde trafegando dentro do parque Rockcliffe


Já a praia Britannia, por exemplo, que ainda preserva a antiga estação de bondes, poderá ser acessada a pé a partir da futura estação New Rochard, mas apenas depois de uma caminhada de cerca de 30 minutos. 


A antiga estação de bondes preservada no parque da praia Britannia




Mapa do sistema a partir do google maps
(fonte: https://www.octranspo.com). Acesse o mapa original aqui.


A finalização das obras da Linha 1 está planejada para este ano. Fortemente criticado por parte da população, especialmente por quem não depende do transporte público, o sistema de trens de Ottawa tem contribuído para mitigar o congestionamento das vias rodoviárias da cidade e devolver mais tempo e conforto aos passageiros. Apesar de oneroso, o atual investimento resgata antigos investimentos que irresponsavelmente foram sucateados. 
O retorno do sistema de transporte por trilhos à cidade é uma prova de que os bondes nunca deveriam ter sido destruídos em Ottawa ou em qualquer outra cidade do mundo. 

O O-Train é apenas um exemplo de retorno moderno do bonde como tentativa de corrigir escolhas equivocadas do passado. Nos próximos anos, com certeza novas linhas e outras formas de transporte por trilhos serão necessários para conectar de forma eficiente as diferentes regiões de Ottawa. E essa lição vale para qualquer cidade grande. 

Para os interessados no trem de Ottawa, a excelente página (https://www.railfans.ca/) possui farto material sobre o sistema de trens urbanos de Ottawa. 





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