Quando cheguei a Ottawa, fiquei surpreso ao descobrir que, assim como nas cidades brasileiras, todas as antigas linhas de bonde foram suprimidas e muitos dos seus leitos convertidos em vias asfaltadas para ônibus e carros.
Assim como aconteceu em toda a América Latina, também a América do Norte viu uma mudança generalizada de bondes para ônibus a partir do final dos anos 50, e o Canadá não foi uma exceção. Também nesse país uma extensa malha de trilhos virou sucata em favor da indústria automobilística. Esse movimento surgiu na América do Norte e influenciou a mentalidade dos empreendedores do restante da América e Europa ocidental.
No Canadá, cidades maiores como Victoria, Vancouver, Calgary, Edmonton, Winnipeg, Halifax, Montréal, Québec e Ottawa também acabaram com suas linhas de bonde. Houve poucas exceções mundo afora(tratarei sobre elas em uma próxima postagem). Toronto, foi a maior delas nas Américas; manteve o serviço ininterrupto detendo em toda a América o maior número de quilômetros de trilhos, de usuários e de frota.
O sistema de Ottawa não teve a mesma sorte. Em 1948, a OER (Ottawa Electric Railway), empresa privada que administrava os bondes da cidade propôs um aumento das passagens, o que provocou um referendo no qual a população votou a favor da municipalização do sistema de transporte. Como consequência a estatal OTC (Ottawa Transportation Commision) assumiu o controle da OER (Ottawa Electric Railway) em 1950. Como o sistema estava ultrapassado e a nova empresa não tinha recursos para a expansão das linhas do bonde, a OTC decidiu por extinguir o sistema, o que aconteceu no dia 1o de maio de 1959. No dia seguinte, os veículos já desativados desfilaram pela última vez na cidade.
Esse padrão de substituição do modal ferroviário pelo rodoviário teve como resultado o estrangulamento das vias com o aumento dos automóveis.
Devido a esse problema, bondes mais modernos usados na Alemanha (Stadtbahn) e mais tarde em Nantes e Grenoble na França (Tramway) passaram a inspirar iniciativas de retorno do antigo bonde, agora rebatizado de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), como alternativa de mobilidade urbana.
As Linhas Trillium (2 e 4) e Confereration (1 e 3)
De certa forma num movimento de retorno ao modal extinto, Ottawa iniciou, no final dos anos 90, planos para reimplantar um sistema de trilhos urbanos na capital.
Em 2001, a empresa municipal OC Transpo (inicialmente Ottawa-Carleton Regional Transit Commission) , sucessora da antiga OTC, implantou a linha Trillium de 8 quilômetros com trens a diesel e, em 2019, a linha Confederation de VLT (linha 1). A Linha 1 está desde então em expansão na realização de um grande projeto de mobilidade urbana, recuperando em parte a mobilidade que era oferecida pela malha de bondes, agora incluindo partes mais distantes da cidade.
A Linha Trillium (Atual Linha 2)
A linha Trillium foi inagurada em 2001 com oito quilômetros de extensão sob o nome de O-Train e esteve em operação até 2015 com três trens Bombardier Talent percorrendo cinco estações (Bayview, Carling (atual Downslake), Carleton, Confederation (atual Mooney's Bay) e Greenboro.
(Fonte: https://www.railfans.ca/o-train/content/trains/bombardier-talent)A partir de 2015, os três trens Talent da Bombardier foram substituídos pelos seis trens Alstom Coradia LINT. O sistema foi então renomeado para Trillium Line/Linha 2, já considerando a construção da futura linha 1 de VLTs inaugurada em 2019. Entre 2019 e 2020, a Trillium Line já fazia conexão com a recém inaugurada linha 1 na estação Bayview, até o fechamento da linha em 02 de maio de 2020 para a sua expansão na direção sul. A linha 2 permaneceu então fechada por quase cinco anos, quando foi reinaugurada em 06 de janeiro de 2025 com sete novos trens Stadler FLIRT e mais seis estações (duas estações adicionais e duas estações renomeadas no trecho original: Bayview, Corso Italia, Downslake, antiga Carling, Carleton, Mooney's Bay, antiga Confederation, Walkley e Greenboro. A partir da estação Greenboro, mais quatro estações foram inauguradas na direção sul da cidade: Southkeys, Leitrim, Bowesville, uma estação estacionamento, e de lá até o bairro de Riverside South cuja estação final é a Limebank Station.
Da estação South Keys, sai a linha 4 até o aeroporto da cidade (YOW), conectando três estações: South Keys, Uplands e Airport (Aeroporto). No total, a linha 2 atual conta com 13 estações e extensão de 19 quilômetros e a linha 4 com duas estações e quatro quilômetros de extensão.
Atualmente, a Linha 2 conta com treze trens a diesel, seis Alstom Coradia LINT e sete Stadler FLIRT. Os trens são confortáveis, espaçosos e proporcionam uma viagem agradável de aproximadamente 40 minutos de uma ponta a outra da linha. Embora os trens LINT ainda rodem na linha 2, eles são mais utilizados na linha 4.
Trem Alstom LINT chegando à estação Limebank em fevereiro de 2025
A linha Confederation (Linhas 1 e 3)
A linha 1 foi inaugurada em abril de 2019, com as atuais treze estações (Tunneys Pasture, Bayview, Pimisi, Lyon, Parliament, Rideau, uOttawa, Lees, Hurdman, Trumblay, St. Laurent, Cyrvile e Blair). Diferentemente da linha 2, a Linha 1 foi projetada para veículos leves (VLTs), contando atualmente com trens Citatis Spirit da Alstom.
Apesar de ser tecnicamente classificada como VLT, a linha 1 se diferencia dos sistemas tradicionais por possuir vias completamente segregadas, eliminando o compartilhamento de tráfego com pedestres e veículos rodoviários. Essa configuração confere à linha 1 características operacionais de um metrô, embora opere com material rodante leve.
Desde abril de 2019, a linha está em processo de expansão nas direções oeste e leste. A extensão parcial da atual linha 1 será dividida com a futura linha 3, de modo que ambas as linhas (1 e 3) compartilharão os trilhos entre as estações Lincoln Fields (oeste) e Trim (leste), a futura estação final no lado leste (atualmente a estação final é a Blair).
Trecho em construção entre as estações Blair e Montréal em 2024
(foto do autor)
A oeste, a linha 1 se separará da linha 3 a partir da estação Lincoln Fields e seguirá no sentido sul para mais duas estações, Iris e Algolquin, a futura estação final no lado sudoeste. Já a linha 3, partindo da estação Lincoln Fields, seguirá para mais quatro estações na direção oeste: Queensview, Pinecrest, Bayshore, alcançando a estação final Moodie.









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