Falei na última postagem (aqui) sobre a falta de recursos da Estrada de Ferro Bahia Minas. Essa situação se agravou a partir da década de 50, quando o governo federal já priviligiava as rodovias de maneira mais acentuada. Ao mesmo tempo, as ferrovias, para se tornarem mais competitivas, passaram a substituir suas maria-fumaças por locomotivas movidas a óleo diesel, mais potentes, mais econômicas, mais ágeis e de manutenção mais fácil. Por volta da década de 50, começavam a chegar às principais ferrovias brasileiras locomotivas diesel-elétricas.
A EFBM possuía apenas locomotivas a vapor e, por estar em crise financeira, por falta de investimentos e pela concorrência com a rodovia Rio-Bahia inaugurada em 1943, não tinha meios para adquirir novas máquinas. Houve nessa época a doação de duas locomotivas a vapor da Central do Brasil, mas que não se adaptaram à linha desgastada. Consciente da impossibilidade de adquirir uma locomotiva a diesel, a Bahiminas criou sua própria máquina a óleo a partir de um motor a diesel (um motor de trator) que havia em suas oficinas em Ladainha.
Nas oficinas de Ladainha reparavam-se locomotivas a vapor, mas também fabricavam-se vagões de carga, de passageiros e autos de linha. Como havia nas oficinas uma automotriz parada, provavelmente vinda da Central do Brasil, seu motor foi utilizado para a construção de uma locomotiva a diesel, novo desafio para os técnicos de Ladainha, que tiveram muito êxito e dessa forma conseguiram que a EFBM, apesar de todas as dificuldades que tinha, pudesse também, efemeramente, experimentar da dieselização com o feito da 800 e mais tarde com a vinda das U5b.
A locomotiva 800 tinha a configuração de truques B-B e de porte de uma manobreira. Parecia com a GE de 44 toneladas, pois tinha a cabine no centro da locomotiva como a da GE.
Ela, juntamente com os autos de linha, fomentaram um novo padrão de cores para diferenciá-los das máquinas a vapor. A 800 apresentou inicialmente cabine clara (aparentemente branca) e o restante do corpo em vermelho-ferrugem. Mais tarde a pintura mudou para vermelho em toda a extensão da locomotiva até a altura das janelas laterais. Das janelas para cima, ela era toda branca, como se pode ver parcialmente na foto (as cores não são nítidas). A sigla da ferrovia apresentava na 800 pontos após cada letra, como era já usado nas demais locomotivas.
Suas extremidades eram iguais e por isso não se podia distinguir externamente a frente da traseira da máquina, exceto pela presença de um sino no alto da parte anterior. Curiosamente, os limpa-trilhos, presentes em ambos os lados, eram de máquinas a vapor, o que dava à 800 um aspecto muito peculiar.
A 800 com o primeiro padrão de cores
(fotografia de autor desconhecido)
A 800 com o segundo padrão de cores
(fotografia de autor desconhecido)
Comparação entre a 800, à esquerda, e a GE 44 ton à direita:
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| A imagem da GE 44 ton à direita está disponível em: < http://f.tqn.com/y/modeltrains/1/W/K/P/-/-/44T.jpg> Acesso 02/01/2016> |
Segundo me informou o sr. Arysbure, a 800 tracionava tanto cargas quanto carros de passageiros, mas com poucos vagões. Apesar do limite de tração que tinha, ela era considerada "ótima de linha" e rodava muito bem nos precários trilhos da EFBM, o que não acontecia com a U5b que passou a rodar bem mais tarde na ferrovia. Além de frequentemente descarrilar, a U5b "cuspia muito óleo", segundo me contou seu Arysbure.
Com a erradicação da EFBM, a 800 foi embarcada com as outras máquinas da ferrovia para Divinópolis e, infelizmente, não se teve mais notícias dela. Há relatos de que ela funcionou como manobreira no pátio por um curto período, mas depois provavelmente foi também para o corte como todas as outras.
Talvez no futuro, quando os documentos da antiga RFFSA estiverem mais organizados, poderemos saber com exatidão sobre os destino que teve cada máquina da saudosa Bahiminas, mas, considerando os relatos, todas foram para o corte sem exceção.



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